TAVI: já devemos progredir a indicação para os pacientes de risco cirúrgico moderado?

O implante transcateter de válvula aórtica (TAVI) para o tratamento da estenose aórtica, segundo as principais diretrizes atuais, é indicado como uma alternativa ao tratamento cirúrgico convencional nos pacientes com risco cirúrgico elevado (classe IIa, B), ou como a melhor estratégia de tratamento para os pacientes considerados inoperáveis (classe I, B). As evidências que suportam estas indicações vêm de dois grandes estudos: o Partner trial (prótese Edwards Sapien) e o US Pivotal trial (Prótese Medtronic CoreValve).


No entanto, a pergunta se devemos ou não progredir as indicações do procedimento para pacientes com risco operatório mais baixo começou a ser respondida nos últimos meses com a publicação do estudo Partner 2 no nejm.org.


O Partner 2 é um estudo multicêntrico, que avaliou a hipótese de não inferioridade da TAVI randomizando 2032 pacientes com estenose aórtica importante sintomática e risco cirúrgico intermediário (STS score entre 4 e 10%), com média de idade superior a 80 anos (81,5 no grupo TAVI e 81,7 no grupo cirurgia convencional). Os pacientes foram primeiramente avaliados quanto à possibilidade de se fazer o implante por via transfemoral e posteriormente randomizados para os dois grupos de tratamento: TAVI (1011 pacientes) x troca valvar aórtica cirúrgica convencional (1021 pacientes).  Sendo assim, foram criados dois grupos quanto ao tratamento (TAVI x cirurgia) e duas coortes pré-especificadas para análise no grupo TAVI: acesso transfemoral x cirurgia e acesso transtorácico (que incluiu os acessos transapical e transaórtico direto) x cirurgia.


O desfecho primário composto por morte por todas as causas ou AVC grave (desabilitante) foi semelhante entre os grupos ao final de 2 anos de seguimento (19,3% para TAVI x 21,1% para cirurgia; p=0,25). De forma interesante, a coorte de acesso transfemoral resultou em menor risco de morte ou AVC quando comparada ao tratamento cirúrgico convencional (HR: 0,79; p=0,05) enquanto a coorte de acesso vascular alternativo teve resultados semelhantes à cirurgia.


Além disso, no grupo TAVI foi menor a incidência de complicações importantes como sangramento grave, insuficiencia renal aguda e nova fibrilação atrial. A incidência de BAVT com necessidade de implante de marca-passo (MP) definitivo foi semelhante entre os grupos mas aqui cabe um detalhe técnico quanto a prótese utilizada no estudo. A prótese Edwards Sapien tem, em todos os estudos, uma incidência de MP definitivo comparável ao tratamento cirúrgico. Diferentemente de outras próteses como a CoreValve (Medtronic) e a Lotus Valve (Boston Scientific) que tem incidências bem mais elevadas.


Já devemos então progredir a indicação da TAVI para os pacientes de risco moderado?

Opiniões pessoais:

  • o bom desempenho da TAVI em um estudo com esta dimensão certamente coloca o tratamento percutâneo no hall de opções para estes pacientes.

  • é muito importante notar que a população estudada, embora tivesse risco cirúrgico moderado pelos escores, foi composta por indivíduos acima de 80 anos. Este é um dado extremamente relevante ao se considerar a validação externa do estudo e a transposição dos resultados para a nossa prática cotidiana.

  • ao se estudar uma população de risco mais baixo a qual, consequentemente, viverá por mais tempo, maior é a necessidade de um seguimento longo para que se possa avaliar o desempenho a longo prazo das duas terapias. Dois anos de seguimento pode não ser o suficiente para se testar, por exemplo, a durabilidade da prótese percutânea. Embora que, as análises de até 5 anos de seguimento do Partner 1 demonstram uma durabilidade semelhante das próteses percutânea e convencional.

  • Este trial vai mudar as diretrizes atuais? Provavelmente sim. Os guidelines atuais de valvopatias (SBC, AHA/ACC e ESC) contemplam a TAVI apenas para os pacientes de risco elevado ou inoperáveis. Possivelmente os pacientes de risco intermediário serão também considerados após os resultados deste estudo (principalmente os com idade avançada).




Fonte: www.cardiopapers.com.br


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